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O nosso tempo.

Mobilizado pelo sentimento de parte do mundo na possibilidade de um novo ano novo, tendo como destinatários os queridos amigos, parceiros, paixões e amores, oferto, com leveza e alegria os meus sentimentos, e uns dois pensamentos sobre os momentos festivos das celebrações cristãs e “capetalistas” nos nossos diversos espaços, etnias, fés, gêneros, sexualidades, famílias, desgarrados e deserdados do mundo normal e feliz.
Mutante eu, mutandis pessoas, sempre, e o mundo, as coisas, os sentimentos, as estruturas, os princípios também cambiam juntamente. Não farei um relato balanceando os prós e contras do meu ano, pois este não começou e terminou segundo o calendário gregoriano. Meu ano, meus meses, dias e horas, tiveram sim, deslocamentos, fases, círculos, espirais, etapas, movimentos, trilhas, imagens marcantemente emocionais, afetivas, amorosas, racionais que me invadem seja involuntariamente ou propositalmente.

Inegavelmente me entreguei a furar as ondas e nadar contra as correntezas, comprei o peru e jantei com minha amada e distante família, comprei o pernil e ceiei na companhia de gentes queridas, alegres, e apaixonantes. Natal e passagem para novo ano, dentro de mim, teem outros significados, outras vivências, outras ideias, nem mais nem menos, apenas outros, que guardei e guardo, desta vez para eu poder ir vivendo um tanto mais aquilo que sou e quero me tornar.

São os encontros e desencotros vivenciados que me conquistam, abrindo e fechando possibilidades. Decididamente meu ano sou eu e minhas relações apaixonadamente vividas ou não.

Estes tempos atuais a solitude me conquistou, e potencializou em transas de noites longas de insônia, vezes acompanhado e outras sozinho, a aproximação comigo mesmo. Encontrar e construir pontes, estradas, veredas, criar pinturas, crônicas, contos, poemas e então gozar o fato de estar vivo, fora e dentro de uma apatia que sinto em todos os lados, mas, que ao enxergar-la, a vida ficou mais leve para mim, e eu mais potente. para dançar.

Escaramuças escolhidas, agora são poucas e divertidas, consegui me movimentar para outros pontos  e multiplicar o olhar sobre você, sobre a cidade, sobre a esquina da R. Gomes Freire com a R. Mem de Sá, sobre o que importa, até enxergar o nada e começar a preenche-lo. Até me olhar de fora para dentro e deixar o espírito livre para partir em busca de novos mundos e gentes, e amores, e amigos, e paixões.

Gozo bebendo vinho, este me alegra, me inebria, me deixa leve e apaixonado pela humanidade que teima em ser demasiadamente humana, e que odeio sem forças suficientes para abandoná-la. Esta mensagem poderia seguir então em qualquer momento do ano que eu declarasse um novo tempo de uma vida nova. Mas não é assim que funcionou, que funciona. Outra vez penetrei nas ondas turvas do natal e nadei contra as correntezas do novo ano, e pela segunda vez, lá dentro eu estava vivo, racionalmente vivo, afetivamente vivo.

O sobrinho Pedro pede para ir a praia, digo que vou, ele volta após meia hora e pergunta qual a praia, respondo, Leme, ele sai e volta duas horas depois, e pergunta que horas vamos a praia, respondo que estou escrevendo. Os quereres, realizados ou não,  marcam e demarcam mudanças, novos e velhos tempos.

Penso, alguns muitos poucos no planeta querem outro mundo e outras relações, estamos nos encontrando, nos dispondo, nos dedicando. Arestas não deixarão de existir, mas todos estamos revisitando o desejo de estarmos juntos de alguma maneira, e esta maneira é particular, e pode encontrar expressão além da apatia destronando o rei de cinco cabeças, a Majestade Monolito: elites, estados, religiões, capetalistas, serviçais. Como em outros tempos o Sr. da Destruição faz soar da sua trombeta a música da destruição ouvida nos continentes e cidades da nossa amada e detonada Terra, enquanto nos subterraneos, mulheres e homens dão a luz a novas e originais histórias de sonhos prenhes de vida.

O foco é bom para nos perder, mas o trabalho é tudo pra nos fazer sonhar, criar, realizar, brincar, amar, apaixonar-se. E o silêncio quando honesto e digno não é mais que uma oferta de outros diálogos.

Bem vindos a um novo dia. Bem vindos ao viver. Bem vindos às lutas. Bem vindos aos quereres. Bem vindos aos sonhos. Bem vindos ao trabalho. Afeto é Tempo. Sentimento é o que marca e muda. Grato ao tempo. Mais um dia e novamente a sorte está lançada.

O filho de José

Vão!

Celebra teu nascimento mesmo depois de morto

Observa: comer e beberem com fartura em torno de teu nome

Cadáver insepulto que busca avidamente o amor de leais serviçais

Ser pútrido que caminha solitário entre bares maquinando barganhas de falsos sentimentos de carinho e amor com os potentes criadores.

Besta

Bosta

Bundão

No lugar do seu sentir, um contrato social;

No lugar do raciocinar uma pseudo-ideologia para amar.

Volta e vem ver como tudo a sua volta o quer vivo para torturar e matar.

(JTEMPO)

Inspirado em Salgado Maranhão e Zeh Gustavo

Transpenumbra

tempestade

que passe

deixando intactas as pétalas

você passou por mim

as tuas asas abertas

passou

mas sinto ainda uma dor

no ponto exato do corpo

onde tua sombra tocou

que raio de dor é essa

que quanto mais dói

mais sai sol?

 

Paulo Leminski

(Estudos de J)

Movimento.

hoje esfriou
a vida ficou menos agitada
o trabalho fluiu
e o coração, ainda vadeia na busca do impossível
palpitações: ?

 

Dinheiro.

Depois de cantar o rosário,
beijar teresa, a santa.

meias púrpura,
me deixam com sede

só.
noites longas,
longas.
criativas.
sabor chama amora

 

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