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Archive for abril \27\UTC 2012

III –

Ando na direção  de um espécie de armazém misturado com birosca, um tipo de casebre, construído à base de massapê, biribas e cipós de catingueira, que dão o arremate da construção, o telhado é com folhas de palmeira esturricadas pelo sol.

Ainda se vê as digitais de mãos pequenas, parecendo com as de crianças ou mulheres, outras maiores e de dedos grossos, como de velhos lavradores, todas nas paredes avermelhadas atravessadas de frisos esbranquiçados das madeiras e cipós.

Consigo um pouco de água  e levo para a Malhada, na estrada cercas bem feitas de um lado e outro, nenhuminha de vivalma passando 0u pastando, voando ou brotando. O azul do céu não encontra o branco de nunvém alguma. Esta beleza é mortífera. As cercas gritam que as terras, a perder de vista, têm dono.

Caminhando de volta ao simplório armazém, uma revoada de azulôes surge e se assenta em todo o casebre, então começam a cantar como um coral.  Até ali, então, para mim, este dia era bom e bonito.

Duas portas em cada extrimidade, uma janela larga ao centro. Ao lado esquerdo, um menino sentado na sombra brincando com ossos e pedras. Acho que  pastorava as carnes de um carneiro, banhadas em sal e penduradas no arame do varal para secar ao sol. Um pouco além do varal de carnes, a pele do bicho é curtida pelo sol impiedoso.  Ali afugentando urubus, carcarás, sussuaranas, rapozas e tudo mais, o menino nem atinava ao tempo e às coisas da vida.

De lá detrás de um velho balcão, um caboco sorri e diz – se é de paz, se axegue – e vou entrando dizendo paz e bom dia, uma caboca na mesa do bar toma um trago de pinga e me passa a trena dos pés a cabeça, dois homens como que índios conversam baixo e civilizadamente sem dá atenção alguma ao mundo pegando fogo ao seu redor. Apeiam lá fora dois homens, um alto e magro, todo vestido de preto, e ele era negro, o outro homem, todo vestido de branco, era branco também. Ambos armados com pistolas, espingardas e facões.

Neste reino da Manhã a conversa é calma e bem polida, atenciosa, esta é a terra onde ouvi falar que se deve “aprender a entrar, e aprender a sair”. De outra forma só se passa ao largo.

Uma risadaria, assobios, gritos e o barulho de pisadas alucinadas em correria anunciava a chegada de comitiva de moços de calças curta. Debandada do passaredo, lá se foi a orquestra de azulões. Antes assim amigo, os jovens e crianças nestas bandas sempre andam armados, os mais velhos com espingarda de chumbo e os mais novos com badogues, muitos têm pontaria certeira, pois na maior parte das vezes depende deles a única carne do dia ou da semana, tamanha é a precariedade de seus recursos e o impiedoso clima.

Bebo um gole de água e trago de cachaça, fui aos fundos deste palacete salvador sentar a sombra de uma jabuticabeira, e lá estava um homem, um árabe, tinha nas mãos uma máquina de filmagem, e disse que andava por ali em busca de histórias para gravar e passar nos cinemas das cidades. Mais afrente um barulho bom e bonito, era um riacho, de água verde e limpa, na outra margem uma lavadeira batia roupas nas pedras. Saí correndo e me atirei em suas águas tão frias e gostosas que lá fiquei, até engear os dedos de pés e mãos.

Lembrei então, do reindo dos Sonhos, lugar que muito queria conhecer.  De volta na venda, pedi ao vendeiro comprar  um naco da carne pendurada no varal, uma rapadura e um punhado de feijão e farinha. Triste, mas sem condição, ofereci a égua pelas comidas, mais uma garrafa de pinga, pra tornar a caminhada menos solitária, uma garrafada contra coração ruim e olho envejoso, por precaução dos encontros indesjáveis, mas que sempre acontecem. Ainda solicitei e uns dez cobres pra não sair de mão abanando. Ele se riu e disse –  tá feito, Joãooo, ô minino João, pega um quarto desse bóde e me traga aqui.

Agradeci a acolhida, os comes e os bebes, o sol brilhava no pino, sacudi as alpercatas e sem alvoroço e com dor de deixar a Malhada, finquei o pé na estrada. Por sorte, estimado amigo de La Manhca, uma légua depois, um homem e uma mulher em carro simples e bem confortável oferece uma carona… Iam no rumo do reino da Tarde. Longa distância e caminho desconhecido para mim.

No banco trazeiro do carro dois computadores portáteis Dom Alonso…

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1. Pau que dá em Chico, dá em Francisco.

2. Toda criança que chora mama. Adulto, não.

3. Não sabe bater um prego em barra de sabão.

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Andava um casal de amigos, héteros, numa noite de sexta feira, pelas ruas da Lapa, aqui na cidade Maravilhosa.

Na Esquina da Riachuelo com a Gomes Freire encontraram um casal de amigos, gays. Contentes de se encontrarem se abraçaram, e cumprimentaram com os tradicionais beijinhos de rosto.Descobrem na conversa que vão na mesma direção, o casal de amigos hétero, seguia para o Circo Voador, para show do Zeca baleiro, um dos nomes mais instigantes da música no Breasil.

O casal de amigos gays seguia para o Sinuca da Lapa, local onde gostavam sempre de jogar e ouvir músicas escolhidas na máquina cata tostões. Na esquina da Riachuelo com a Joaquim Murtinho, estes dois casais foram abordados por um rapaz aparentando 16 anos, branco, bem vestido, e lhes pediu uma informaçã. Ao parar para… cerca de dez homens, bem vestidos e brancos agrediram com violência física e moral, os quatro amigos que apenas seguiam com suas vidas.

Entre as agressões de chutes e socos, gritavam, “puta amiga de viado vai apanhar até morrer”, “bicha na lapa vai pro esgoto”, “amigo de gay é gay também”… daí pra frente a sorte veio lhes salvar na figura de alguns casais de homens e mulheres gays, que estavam em grupo, e viram o crime a beira da sua concretização, e conseguiram impedir a vitória da morte sobre a vida, do ódio sobre o amor, da injustiça contra a dignidade.

É preciso definitivamente agir e dá um basta nos crimes de homofobia, de xenofobismo, de segregação. Eu estou do lado do amor e da alegria, estou do lado dos gays.

Livre narrativa de acontecimento ocorrido durante este fim de semana na cidade do Rio de Janeiro, na Lapa. Abaixo cartaz de evento em Salvador para pensar e agir afirmando a vida contra a morte, pois ser gay é bom, bonito e amável.

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V.

A classe média não gosta da classe média. A classe média não enxerga a classe média. A classe média não filma a classe média. A classe média não escreve sobre a classe média. A classe média não critica a classe média. A classe média gosta de média. A classe média quer ser pobre. A classe média quer ser rica. A classe média gosta de lasanha diante da televisão no dimingão. A classe média tem medo da classe média. A classe média está morta, viva a classe média.

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I –

Estimado Dom Quixote, sei que há muito não bebemos um trago e proseamos sobre a vida, e suas descoisas, agora te escrevo,  contente de o ter encontrado na semana que se passou, quando rimos de nossas andanças e peripécias, dores e gozos. Diga a Sancho, amigo leal, que ao que vi, me pareceu, pelo largo da figura, que a vida não lhe tem sido madrasta.

Amigo, quanto aos amores, de agora e de sempre, destes todos, a lasciva Vida e a ousada Liberdade são as amantes mais fiéis, pois a ingrata e linda Morte, que rodeia todos, e nega encontros quentes para mim, espreita ciumenta noite e dia! E me pergunto: quando virá me ter só para si, no seu leito a trepar e me amar finalmente?

O que dizer então das aventuras amigo? Estive em alguns reinos: os reinos da Noite, da Madrugada, da Aurora, da Manhã, da Tarde, do Sonho e do Por de Sol, são as sete maravilhas desta nossa existência ignorante e vagabunda. Dentre todos, gostei por demais do reino da Noite. Neste conheci uma grande paixão entre esquinas sujas cercadas de bares, embriagada por delírios de amor intangível, o que a tornara menos misteriosa, e não menos apaixonante. O melhor? Inteligente, bela, e de uma alegria contagiante.

Mas a existência não é apenas cheiro da Dama da Noite. Partindo ela para o reino da Manhã, onde o povo tem uma face carrancuda, e reclama da promiscuidade amorosa da Vida, anda  em carroças lotadas amontoados como girimuns, caminham léguas para trabalhar, comem o que lhes dão em migalhas sobejadas de usurpadores, e exploradores de uma das amantes lindas que tenho o prazer de deitar e fazer ousadia as vezes, a Criatividade.

Há! então a Dama da Noite se foi em busca de algo, ou mais precisamente, alguém, que lhe seja o provedor, ao chegar encontrou o sedutor Futuro, que a prometeu o inimaginável.

Só! Também parti. Então para o reino da Madrugada cheguei, neste experimentei uma dor deliciosa de viver e estar entre as encruzilhadas com gentes tantas diferentes, cheias tantas de amor, que transbordavam carência exalando éter, expressando vazios, calando paixões.  Com as energias dispersas parti ao leste.

II –

Nas fronteiras do reino da Aurora, crianças, mulheres e velhos, todos magros, imundos e em trapos escalavam uma montanha de lixo, onde se alimentavam de restos  de comida em meio a papel higiênico, garrafas plásticas, bonecas descabeladas, disputando com ratazanas cada pão duro, carne apodrecida, pedaço de fruta.

Fome apaziguada, iniciam a procurar objetos como velhas panelas, talheres, roupas rotas, calçados. Até ouro e prata se encontram em dias de sorte. A chuva forte despenca na montanha de lixo, parte dela desmorona e alguns são soterrados até a morte. Ainda assim, amigo Dom Alonso, seguiram o trabalho desdenhando do fato.

Conseguido quinquilharias, velhos e mulheres iam em busca de suas garrafas de bebidas preferidas, as mais baratas e com maior teor alcólico, assim adormeceriam entorpecidos para no dia seguinte voltarem ao seu ofício. As crianças, estas ficavam a brincar com os objetos encontrados e deixados pelos adultos. Como animais, sentavam ao pé da montanha de lixo e brincavam, não raro, brigavam por um objeto ou outro e cansados se recolhiam a casebres feitos com tudo encontrado no lixo e na natureza. No sono sonhavam com afeto, sonhavam ser crianças.

Dentro do reino da Aurora crianças limpas em fardas escolares, mulheres jovens e com perfumes vulgares, homens andando apressadamente não viam seus semelhantes viver do lixo produzido por eles. Se viam ou o cheiro os incomodavam, fingiam nada acontecer.

Tendo atravessado a o pequeno reino da Aurora rumei ao interior do continente até alcançar o reino da Manhã, que estes tempos passa por grande atribulação por conta da SECA que consome a vida de viveres animais e vegetais, que faz evaporar cada gota d’água.

Apiei da égua malhada, companheira de andanças, e no momento exausta…

(Continua)

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